Lara Geovana cursa Letras/Libras e ajudou o Brasil a conquistar o segundo lugar no Mundial de 2015.

Mesmo não estando incluídos nas modalidades paralímpicas e sem grandes apoios para a realização de campeonatos, atletas surdos trilham um caminho independente em busca de reconhecimento no mundo do esporte. Estudante de Letras/Libras da Universidade Federal de Goiás (UFG), Lara Geovana de Carvalho Neves é uma delas. Aos 24 anos, ela integra a seleção brasileira feminina de futsal e futebol de surdos. A equipe foi vice-campeã no Mundial de Futsal disputado ano passado em Bangkok, na Tailândia.

lara_geovana_011Uma vez por mês Lara Geovana viaja para São Paulo para treinar com a seleção. No mês passado começaram os preparativos para a Surdolimpíadas 2017 (Deaflympics), que será realizada na Turquia em julho do ano que vem. A modalidade será o futebol de campo. Os treinos oficiais começaram com um amistoso disputado em Jundiaí (SP).

A estudante explica que cada atleta banca sua própria despesa e que não há patrocínio oficial para que o grupo viaje para os torneios internacionais. “Temos que pagar do próprio bolso”, lamenta. Ela conta que depois do bom resultado alcançado em 2015, o Ministério do Esporte prometeu o pagamento de bolsas. A Confederação Brasileira de Desportos de Surdos também tenta garantir salário aos atletas. “Quem sabe futuramente tenhamos algum incentivo”, torce.

Carreira no esporte

Lara Geovana começou a jogar futebol há 10 anos. O que no início era só brincadeira acabou se transformando em treinos semanais na Associação dos Surdos de Goiânia. Em 2013, a estudante foi convocada para a seleção brasileira feminina de futsal e futebol de surdos. Dividida entre os estudos e os treinos, Lara Geovana diz que está mais inclinada à carreira de atleta, embora considere importante a formação superior em Letras, a ser concluída no fim deste ano. A carreira de professora de Educação Física também não é descartada.

Diferente do futebol paralímpico, com adaptações para atletas com deficiência visual e com paralisia cerebral, o futebol de surdos segue as mesmas regras do esporte tradicional. A diferença está apenas na arbitragem. O juiz não utiliza apenas apito, mas também bandeiras para sinalizar as jogadas. Além disso, procura se posicionar de frente para os jogadores, para que eles possam visualizá-lo.

Lara Geovana conta que o técnico da seleção brasileira feminina de futebol de surdos não tem fluência em Libras. Por isso a comunicação é feita com gestos e expressões corporais. A Associação de Surdos de Goiânia ocupa a oitava posição no ranking nacional de futsal feminino e a segunda no futsal masculino (ranking atualizado em junho desse ano).

Deaflympics ou Surdolimpíadas

O primeiro evento multidesportivo internacional voltado para atletas surdos foi realizado em 1924, em Paris. Participaram 145 atletas de nove países europeus, em sete modalidades: atletismo, ciclismo, saltos ornamentais, futebol, tiro, natação e tênis. Até 1965 o evento era chamado de Jogos Internacionais Silenciosos. O termo Surdolimpíadas, ou Deaflympics, foi adotado a partir do ano 2000.

Por que não há surdos nas Paralimpíadas?

O Comitê Internacional de Desportos de Surdos (ICDC, na sigla em inglês) foi criado 36 anos antes do Comitê Paralímpico Internacional, com o qual se juntou em 1985. Mesmo assim, os eventos para deficientes auditivos continuaram a ser realizados de forma independente. Dez anos depois, o ICDC decidiu se retirar do Comitê Paralímpico Internacional. Alguns fatores são apontados como inviáveis para a participação dos surdos nas Paralimpíadas, como a grande quantidade de atletas (cerca de 2,5 mil pessoas participam das Surdolimpíadas) e a necessidade de muitos intérpretes. Para a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos, é necessário dar mais visibilidade aos eventos esportivos voltados para deficientes auditivos, atraindo investimentos e possibilitando, assim, mais reconhecimento aos atletas.

Fonte: Jornal UFG