O esporte eletrônico é algo que tem como objetivo atrair e divertir pessoas, independentemente de idade, classe, gênero – incluindo pessoas com certas necessidades especiais. Essa é a ideia de Vanderley “vaneov” Júnior, jogador e organizador de torneios para a comunidade surda.

Interessado no competitivo desde a época do Counter-Strike 1.6, vaneov nunca deixou sua surdez impedi-lo de jogar ou unir a comunidade surda, e desde cedo organizou pequenos torneios 1v1 do jogo em lan houses. “Foi muito divertido e fiz novas amizades”, relembra o jogador sobre a época.

Em seguida, o jogador conheceu e se interessou por DOTA, ainda em sua primeira versão. “Chamei alguns surdos para jogar DOTA. Gostamos muito e aprendemos muita coisa”, conta. “Pesquisei no Orkut sobre um campeonato de DOTA via internet e encontrei um que chamava LBD – Liga Brasileira de DOTA. Conversei com meus amigos surdos para participar, mas na primeira partida meu time perdeu muito feio porque não tínhamos experiência para o competitivo. O nível de surdos é mais baixo que dos ouvintes, porque falta conhecimento e informações”.

No DOTA desde 2006, vaneov lembra que ganhou uma chave para o beta de DOTA 2 do próprio Icefrog depois de enviar um email com um vídeo apresentando a comunidade surda do jogo no Brasil. Além de sua chave, o jogador também recebeu mais cinco, que foram entregues aos ganhadores de um torneio 1v1 organizado por ele.

Depois disso, a organização de torneios de DOTA 2 só aumentou. Além de um amistoso entre jogadores surdos do Brasil e do restante da América do Norte, vaneov realizou campeonatos para surdos de 2012 a 2014 – dos quais também participou como jogador.

Após o sucesso de seus torneios, Vanderley decidiu fundar a liga Deaf e-Sports League e a Rabbit Deaf e-Sports, equipe composta apenas por surdos. Pagando premiações de seu próprio bolso, a Deaf teve sua Copa de Abertura de DOTA 2 em 2016 com a participação de três times brasileiros e um time peruano. “Os jogadores gostaram o campeonato, mas o problema é que não tivemos transmissão ao vivo e muitos queriam assistir às partidas”, explicou.

Com o sucesso da Copa, começaram a chegar pedidos para que vaneovorganizasse torneios para surdos também em Counter-Strike: Global Offensive e League of Legends – e foi isso que ele fez. No final de 2016, a Deaf anunciou três temporadas de torneios incluindo as três modalidades, além de uma quarta temporada que será realizada presencialmente em Brasília e uma premiação total de R$ 9 mil.

“Os jogadores ficaram muito feliz e animados com o evento presencial, porque é o primeiro para comunidade surda no Brasil”, diz orgulhoso. “Quero investir nisso para mostrar a todo mundo que os jogadores surdos são iguais aos outros (ouvintes, ou pessoas com audição). Sei que os jogadores surdos têm os mesmos sonhos, por isso quero realizá-lo”.

Surdo e proplayer

A comunidade que vaneov conseguiu unir tem cerca de 140 jogadores, entre homens, mulheres, brasileiros e residentes de outros países da América Latina. Entre eles está Luciano “ceano” Amorim, jogador de CS:GO da Rabbit Deaf e-Sports.

Gamer desde a época de Winning Eleven no PlayStation 1, ceano conta que ganhou um computador de seu pai e, desde então, não parou de jogar. “Meu primeiro jogo competitivo foi Point Blank, que tinha campeonatinhos para surdos, mas quando diminuiu a comunidade de surda, resolvi me adaptar pra jogar CS:GO, quando soube que também tinham surdos jogando lá e que iriam ter campeonatos bons”, lembra.

Em novembro de 2016, ceano montou a Rabbit com a ajuda de Vanderley. A equipe foi campeã invicta da primeira temporada da Deaf de CS:GO neste ano, mas o jogador explica que não é fácil treinar com seus companheiros, pois alguns trabalham e estudam e só podem jogar no final de semana.

Com a falta de suporte maior para surdos em jogos, ceano conta que os jogadores são obrigados a improvisar. “O treinamento não é fácil porque precisamos combinar de nos comunicar pelo chat e isso complica um pouco o foco do jogo. Por isso, criamos alguns códigos, por exemplo, ‘fnd’ significa que tem inimigos no fundo. Também combinamos em nos comunicar pelo blind que criamos no .cfg. Se eu apertar o botão C, aparece ‘INIMIGO AVISTADO’. Criamos coisas assim para facilitar a nossa comunicação”.

De acordo com ceano, a grande vontade da equipe é competir em algum torneio organizado pela Gamer’s Club, mas diz que ainda tem muito chão pela frente. “Sabemos que não estamos prontos para isso ainda. Precisamos treinar mais, mas quem sabe, em breve, podemos estar jogando lá”, afirma. Atualmente jogando a segunda temporada da Deaf League, a Rabbit está invicta e em primeiro lugar na tabela.

ceano também comentou outro sonho da comunidade surda no esporte eletrônico: o fim do preconceito. “Sempre tento mostrar para as pessoas que posso jogar sem som, pois tenho boas habilidades, mas continuam falando ‘O cara é surdo e acha que pode jogar melhor que pratas’, aí acaba me desanimando. Já pensei em parar de jogar por causa disso muitas vezes, mas nunca desisti e ainda estou lutando”, revela.

A solução que achou no momento é ignorar e deixar os ‘haters’ falando sozinhos, concentrando-se em se sair bem na partida para mostrar suas habilidades. Além disso, afirma que jogadores surdos são tão capazes quanto os ‘ouvintes’. “O que nossa comunidade surda quer é mais respeito da comunidade, apoio e motivação”, finaliza.

Como as desenvolvedoras poderiam ajudar?

Para Vanderley, o CS:GO tem chat e comando bons, além de ter passado por uma melhoria no radar. “Os surdos podem ver onde estão e isso ajuda muito”, explicou. Já ceano acredita que ainda é possível melhorar. “Tem muito a melhorar para comunidade surda sim, por exemplo, quando alguém está defusando a bomba os surdos não conseguem escutar, então temos que nos arriscar para ver”, exemplifica. “As desenvolvedoras poderiam melhorar esse problema, por exemplo, colocar um aviso ‘C4 está sendo defusada’ ou algo assim, como no Point Blank”.

Vanderley também elogiou as sinalizações de DOTA 2 e League of Legends, afirmando serem eficazes quando utilizadas para seu principal propósito (e não quando jogadores ‘pingam’ para nada). No entanto, sugeriu que as desenvolvedoras pensem na possibilidade de incluir vídeo-chamadas para que grupo de jogadores surdos possam se comunicar em LIBRAS ou em sua língua de sinal. “Acredito que comunidade surda podem ficar feliz por isso”, garante.

A Deaf e-Sports League pode ser acompanhada aqui. Jogadores surdos estão convidados a participar da terceira temporada e da edição presencial, sendo necessário comprovar a perda auditiva nos dois ouvidos por chamadas de vídeo com os organizadores.

Fonte: ESPN